quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Certa feita alguém disse que eu pensava por adjacências...fiquei triste, pois estavam me chamando "eufemisticamente" de burra. Salvemos nossas memórias!!!
Lembrei que o cérebro é elástico,
Que é possível caminhar inúmeras vezes pelo sol,
Que ainda cometerei muitos erros,
Que as tardes podem ser de chuva,
Que "tudo" muitas vezes é nada
Que o espectro de um tempo não pode condenar minhas terras de luz...
Os donos do nada muito tem a fazer. não são donos do chão, mas deslocam cada passo no imprevisível caminho. Híbridos, distantes, alheios a qualquer campo inseguro; estão sempre partindo. Filho morto : terra bruta : sonho fosco, e assim terminamos o contrato...morrer e acabar é tão simples e ágil e fácil como vencer : é ouro que vira pó , água alimentando semente.
O que nos arrebenta fere mais, não importa se é manhã, nem se vamos dormir agora. Febre, sono que o mar não deixa ter. Muda de um verbo cor de sangue. Faca atravessando a manhã.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

And now the end is near
And so I face the final curtain
My friend, I'll say it clear
I'll state my case of which I'm certain

I've lived a life that's fullI
traveled each and every highway
And more, much more than this
I did it my way

Regrets, I've had a few
But then again, too few to mention
I did what I had to do
And saw it through without exemption

I've planned each charted course
Each careful step along the by way
And more, much more than this
I did it my way


Yes there were times, I'm sure you knew
When I bit off more than I could chew
But through it all when there was doubt
I ate it up and spit it out


I faced it all and I stood tall
And did it my way


I've loved, I've laughed and cried
I've had my fill, my share of losing
And now as tears subside
I find it all so amusing


To think I did all that
And may I say, not in a shy way
Oh no, oh no, not me
I did it my way


For what is a man, what has he got?
If not him self, than he has naugth
To say the things he truly feels
And not the words of one who kneels


The record shows, I took the blows
And did it my way



Frank Sinatra, Nat King Cole, Dick Farney, Nelson Gonçalves...vozes que ouço desde criança e que aprendi a gostar com meu pai, Antonio. Nessa balada de Agosto, desejo Saúde e Paz à pessoa que me deu vida, afeto, educação e carinho. E que me ensinou a valorizar a grandeza desses artistas.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Não gosto que o mar seque nem que os rios percam sua força. Se do céu me vem o medo de voar; eu vôo para nunca mais ter medo. Acordei assim, sem espinhas na garganta, sem camuflar a paisagem sonora das vozes que ficam. Até o sol tem outro sentido: reconstruir a leveza do balanço...na infância, o mais perto que pude chegar de um vôo. E quanta inveja tive de cada passarinho. Perseguindo, divagando, observando deslumbrada todas as cores de uma asa.
Acho que por medo ou vergonha não corri como os garotos correm : peito nu, cabelos ao vento...num dia de sol curtir o mar...Ah, mas eu morro de medo das ondas e o sal queima ainda mais a minha pele. Eu, que sempre desejei ser morena da cor de canela, brejeira, desinibida; com os olhos sensatos e verdadeiros da Julie Christie...
Liberdade para os sonhos e cautela nas rotas do vôo.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O Quartzo Rosa

Quando você fala da loucura, tudo é peso maior: Estorvo arrebentando, chegando ao fim...Os hábitos, os gestos, o silêncio. Olhar de cor azul cobalto. Translucidez. Breve instante, que de tão breve, não cicatriza destinos.
Vai, desperta o sonho das flores de Abril. Encanta as horas e o tempo que ninguém acende. O sol é sobrancelha de arco, puro toque. As mãos : caminho que abrevia o movimento do desejo. Escolhe secretamente uma das almas, que o vento toma parte do improvável. Vai que já é tarde. Teu olhar denuncia : o cansaço já veio. Ansiedade domada pelo cotidiano. É tarde. Fugir é correr das coisas inúteis, da cegueira convulsiva, da esterilidade, da ilusão. Toda fuga é morte na certa. Tempo ao contrário. Jogo de tabuleiro. O monstro e a moça refletida no espelho navegam as mesmas águas.
Lá fora, o mundo não observa o curso das coisas. E continua ocupado. Vai deformando o homem. Gente aos montes nos castelos de poeira. Da ilusão que inventa suas raízes, sobra o branco da página. Se você me sabe, também deve saber que me esgota tanta retidão.
Era uma página em branco e vagava por uma sala até o tombo na pedra. Quartzo rosa. De lá pra cá, de cá pra lá, sempre o avesso, a agonia. A dona do teu tempo é a dona do meu tempo. O temor do homem que não ver a cor do dia é partir pro fundo do buraco negro. Quando você fala da morte é Filosofia. Aprender cortando o ventre. Segurar a lágrima. Seguir a chuva até o infinito sem escorregar. Quando você fala do caos, sabe-se trapezista e vidente. Carrega um archote na caverna escura. Equilíbrio. Riso dizendo de si. Anunciação da terra e do fogo.
Disseram que no Sul da Sicília, na Itália, uma moça perfurou o peito com um punhal de prata. Disseram: destino. E que o vermelho carmim inundou todo o quarto. Não se sabe o que não houve. Não se sabe o silêncio de dois. O não-tempo. Sabe-se um pouco da casa: sombras, móveis antigos, o azul lá fora, a ilha.
Quando você fala: ternura e afeto e carinho e rotas graciosas começam a luzir.
Quando eu calo é sempre amor. Nova travessia que busca o inalcansável. Quisera eu ser outro lugar. Quem sabe o mesmo ventre, perto. O templo. Um fragmento do teu instante. A tua mentira. Teu giz. Parede de aço.
Amor-palavra é o tempo que se faz líquido; flor no peito, jazigo de luz. Pássaro de asa recém-descoberta, imenso no azul que veste o dia, eterno nesse sereno.
Quando você fala o mundo é só distância. Barco, poliedro. Quantas faces tem o mar na tempestade ?
Quando se perde a neblina, não se pode sair por aí buscando um destino frágil. A neblina é o destino, a cicatriz que não cessa. Uma vez perdida, volta mais clara, sempre mais clara. Translucidez. A claridade da razão acometida pelo silêncio. Quando você chega é saudade. Quando eu calo é sempre amor.
(Para "alguns" jogos da alma)

tudo é tempo

A borboleta morta
...água clara...
aranha na agonia de tecer
: : :
: : :

leva folha seca, zumbido, azedume
...dentro do Sertão...
.
.
.
.
Ser(t)ua

O homem que voava com Deus

O homem que voava com Deus era cidadão do seu tempo.
O cidadão que era homem construtor e que teve os olhos para ver sempre mais. Sempre além!!
Se um dia sentiu medo, havia Fé. Se em muitos outros dias sentiu medo...mais Fé ainda. Ah, esse medo que paraliza e leva ao fracasso não paralizou Zezito. Nem a fúria o tomou de assalto, pois a fúria é só mais uma face do medo.
O medo que um filho sente de errar
O medo que o pai tem de fracassar
O medo que o cidadão carrega consigo nas angústias cotidianas e que em cada homem, brilha ferozmente no fardo das noites mal dormidas.
Assim é o cidadão que sente o peso de partir, sente as glórias do que é construir, o valor do trabalho e da sua história. O homem que voava com Deus sabe que a família é sinônimo de força, que o tempo vai depor a seu favor, que o tempo também revela os monstros de alguém.
E por tanto saber e por tanta fé; por querer e construir...
Existe um deus para sua fé de homem, de cidadão e de pai.
Quando seremos pais?
E filhos?
Quando seremos cidadãos, irmãos, e homens de fé?
Inabalável no seu caminhar, inabalável na vida.
Não precisa do aplauso dos seus. Não temeu o Futuro.
Sonhou. Quis. E Fez.
simples assim.

Terra à vista

Como foi bom ter nascido...morrer é a única maneira de continuarmos vivos. Aqui está Francisco: leve, solto, grave, verdadeiro. A dor vai lhe esculpindo uma beleza única, multifacetada. Ele tinha história pra contar. Ele tem história. Acompanhar cada passo desse homem é no mínimo, cinema. Isso: coisa de cinema. Eu não sabia que uma janela pode nos engolir, que um buraco pode nos revelar, que sempre quis morrer com uma bala cravada em meu peito, que o olhar de Francisco era o começo de tudo. Assim acordei : sonhando, como há muito tempo não sonhava: Leões, correria de um lado, correria de outro, muito vermelho, desfecho, abraços, fim do Livro. Eis a terra. Francisco da cor da América latina, da cor do sol, e eu vi o mundo. Daquele homem, o riso frouxo, desatento, livre em cada passo. Caminhava sozinho sob o vazio solar ao meio dia.
O grito abafado pelo vermelho, minhas mortes ao teu sonho, vogais desistentes, amor sem música!! Eu era sim uma lápide, pó dissipado pelo vento. Agora somos mais um elemento da chuva : Terra à vista. Francisco e eu.
Meu amor é como giz; risco e rabisco nos muros do tempo. Faço desenhos cegos, coloridos, abstratos. meu amor transforma o sal de toda lágrima em leve contentamento.
Nós nos perdemos. Eu perdi Francisco. Os leões do sonho perseguem a sombra noturna dos meus olhos. Não tenho medo nem cantarei nosso lamento. Terra à vista. Pisando no chão, esqueço as asas. Nós somos Ele: o homem. Ele era Ela: argila. Ela era Ele:...Distâncias.
Aquele homem de olhos mudos era você mesmo; fartos cabelos brancos, um borrão na areia molhada. Você é minha casa, meu silêncio, meu jardim. E o globo ninando a mesma lágrima...

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

No andar desalinhado, encontro ternura


Nas andanças da alma, largueza de espírito


No esconderijo da criança, encontro a saudade


Nas Rosas que partem...



O curso dos rios.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

My life without me




Minha vida sem mim nos pega de cheio quando nos põe cara a cara com a "sorte" de Ann, personagem de Sarah Polley nesse carismático filme. Com produção de Pedro Almodóvar, Agustín Almodóvar e Ogden Gavanski, o filme de Isabel Coixet nos traz a prosposta de reinventar o cotidiano quando se tem apenas 2 ou 3 meses de vida.
Ann é uma mulher jovem de 23 anos que descobre ter um câncer em estado avançado, e que, apesar de existir meios para amenizar suas dores, náuseas, e de ter várias chances de contar aos familiares o que está de fato lhe acontecendo; opta por listar num papel coisas que gostaria de fazer, sentir e vivenciar. Pelo histórico da sua vida (mãe amargurada, um pai que está preso há dez anos, marido sempre em busca de trabalho e duas filhas pequenas...), Ann não conseguiu concretizar coisas "aparentemente" simples.
Após uma conversa com seu médico, entre balas e um tiro certeiro nas emoções, ela decide viver o que lhe resta e fazer coisas que sempre quis, mas que sequer ousou sonhá-las. Ela decide que pode amar outras pessoas, decide viver intensamente com uma coragem assustadora, momentos que ficariam presos na sua rotina se não despertasse o que havia perdido e não resolvesse "pensar".
A interpretação de Mark Ruffalo (Lee) na história, assim como a de todos os outros personagens, traz o equilíbrio e apoio necessários à vida de Ann que toma um rumo inesperado, mas que pelo uso da razão, opta por não trazer sofrimento aos que ama.
Gostaria de voltar a falar desse filme de maneira mais minuciosa e eloqüente.
O filme de Isabel Coixet nos ensina a compartilhar, a crescer e a sonhar. "Minha vida sem mim" nos ensina a partir em nossa própria companhia; nos ensina a caminhar na vida pelo campo do possível. Traz serenidade, transformação. Por fim, acorda o singular que adormecemos quando "automatizamos" nossas vidas...

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Dispersão...

Tempo de amadurecer rotas. No mar: idas e vindas de algum; de outro, de alguém. O mar, lugarejo da infinitude, dos horizontes, tensão transfigurada. No mais, o mar é sempre assim: Fundura, Origem, a Soma de grandes subtrações. Era um tempo de fuga, plantavam sementes e povoavam os territórios, mas não havia os selos do compromisso.
Toda história traz o marco das possibilidades, as infinitas retas que passam pelo ponto de encontro das nossas miradas.
Na gravidade do olhar, o enigma de Raimunda; ao largo do rio, todos vivem cicatrizados pela órbita do tempo, da necessidade e dos desejos.
Para o amor quando demorar a chegar se guarda o desafio, a necessidade da solidão, o enraizamento das buscas, o encontro com as ondas e o sal. A vida de Raimunda atravessava uma cruzada curiosa, sem testemunhas. Raimunda tinha a marca da juventude com o peso do destino que se cumpriu. Raimunda não espera. Não há ninguém. Ninguém mais...Antonio agora é nunca e tinha os sete filhos criados por uma matriz que abrigava a luz do tempo. Expande-se, trafega em linhas de trem; lançada num mar de areia, Raimunda é só ausência, angústia de quem vive o abandono. No olho esquerdo, a estranheza que ronda o cristalino embaçado. A luz se dispersa, escorre no ralo das ruas e dilui um projeto de construção. A espera vai transitando pelo avesso do tempo que se foi, como se um segredo apontasse o fim. Não tendo nada, Antonio parte com tudo. Na sua livre partida costurou fragilidades para que se cumprisse a solidez dos dias. Sete (7) desenredos percorrem o drama; um escuro que silenciava a voz na recordação do menino de doze anos: "manhã, ninguém acende o sol por aqui".
Cada mão pode conduzir a mágica dos destinos e a fantasia de se calar permanentemente. Os sentidos repletos de fantasmas acabavam numa atmosfera fosca e dilacerada...Antonio partido ao meio tinha o cheiro da chuva. O silêncio dentro das águas arrebentava o piano mudo. Dois corpos interagiam com suas faltas e navegavam um sonho tripartido. Razões perdidas, a pedra em estado bruto, o fogo da nova ordem em algumas palavras: tudo se fez novelo, prece, pacto, arrebentação...sem o sabor do saber, a família era um arriscado grande momento que lhe roubava certezas e deixara seco, o terreno baldio das saudades.
O mundo recolhia suas posses e o grito dos sete. Raimunda cumpriu suas mortes sem se dar conta do destino dos seus. Vida que se joga no que o tempo insiste em perpetuar: o arremedo da felicidade.
Outro possível encontro socorre o tempo deserto; fertiliza margens, nomeia razões.
A cegueira da multidão resiste. Lançada ao mar, Raimunda torna-se dona do seu livre passo. Lágrima no itinerário das rodovias, rosto invisível, página que um tempo marcou. Somente a alegria de um dia talvez...
O enlace, aquele, o único; permanece ocultando o cadáver de uma história.
O tempo, no aguardo do banco de horas, jamais espera a sua vez.


(Para Eliziário e Inalda).

Onde andará Cecília?

Humildade

Tanto que fazer!
livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tudo quanto se esquece.

Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis…
até o fim do mundo assinando papéis.

E os pássaros detrás de grades de chuva.
E os mortos em redoma de cânfora.

(E uma canção tão bela!)

Tanto que fazer!
E fizemos apenas isto.
E nunca soubemos quem éramos,
nem para quê.

Cecília Meirelles

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Mar

Do teu Candelabro
As sombras do palco
e a luz difusa revela outra pintura
numa mesma tela, encontro outra água



Mar

silêncio singrando o vazio
coração habitado pelo vento

Líquido

Geométrico

Reescreve sua fabulação
desafoga lembranças de tantas iras



Sem vaidade

O mar

Sereno marfim
.
.
.

Ouço, noturno, cada passo dos teus olhos
Lá, qualquer criança diz teu nome

Mar
.
.
.

das idas
das voltas
das tormentas
do fim



Somente o mar

Fogo acordado em mim

mar de areia

nos olhos pesados

líquido giz carmim


( À Jeremy John Irons )