Dispersão...
Tempo de amadurecer rotas. No mar: idas e vindas de algum; de outro, de alguém. O mar, lugarejo da infinitude, dos horizontes, tensão transfigurada. No mais, o mar é sempre assim: Fundura, Origem, a Soma de grandes subtrações. Era um tempo de fuga, plantavam sementes e povoavam os territórios, mas não havia os selos do compromisso.
Toda história traz o marco das possibilidades, as infinitas retas que passam pelo ponto de encontro das nossas miradas.
Na gravidade do olhar, o enigma de Raimunda; ao largo do rio, todos vivem cicatrizados pela órbita do tempo, da necessidade e dos desejos.
Para o amor quando demorar a chegar se guarda o desafio, a necessidade da solidão, o enraizamento das buscas, o encontro com as ondas e o sal. A vida de Raimunda atravessava uma cruzada curiosa, sem testemunhas. Raimunda tinha a marca da juventude com o peso do destino que se cumpriu. Raimunda não espera. Não há ninguém. Ninguém mais...Antonio agora é nunca e tinha os sete filhos criados por uma matriz que abrigava a luz do tempo. Expande-se, trafega em linhas de trem; lançada num mar de areia, Raimunda é só ausência, angústia de quem vive o abandono. No olho esquerdo, a estranheza que ronda o cristalino embaçado. A luz se dispersa, escorre no ralo das ruas e dilui um projeto de construção. A espera vai transitando pelo avesso do tempo que se foi, como se um segredo apontasse o fim. Não tendo nada, Antonio parte com tudo. Na sua livre partida costurou fragilidades para que se cumprisse a solidez dos dias. Sete (7) desenredos percorrem o drama; um escuro que silenciava a voz na recordação do menino de doze anos: "manhã, ninguém acende o sol por aqui".
Cada mão pode conduzir a mágica dos destinos e a fantasia de se calar permanentemente. Os sentidos repletos de fantasmas acabavam numa atmosfera fosca e dilacerada...Antonio partido ao meio tinha o cheiro da chuva. O silêncio dentro das águas arrebentava o piano mudo. Dois corpos interagiam com suas faltas e navegavam um sonho tripartido. Razões perdidas, a pedra em estado bruto, o fogo da nova ordem em algumas palavras: tudo se fez novelo, prece, pacto, arrebentação...sem o sabor do saber, a família era um arriscado grande momento que lhe roubava certezas e deixara seco, o terreno baldio das saudades.
O mundo recolhia suas posses e o grito dos sete. Raimunda cumpriu suas mortes sem se dar conta do destino dos seus. Vida que se joga no que o tempo insiste em perpetuar: o arremedo da felicidade.
Outro possível encontro socorre o tempo deserto; fertiliza margens, nomeia razões.
A cegueira da multidão resiste. Lançada ao mar, Raimunda torna-se dona do seu livre passo. Lágrima no itinerário das rodovias, rosto invisível, página que um tempo marcou. Somente a alegria de um dia talvez...
O enlace, aquele, o único; permanece ocultando o cadáver de uma história.
O tempo, no aguardo do banco de horas, jamais espera a sua vez.
(Para Eliziário e Inalda).
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário